quarta-feira, 22 de março de 2017

Beowulf e a corrupção do herói

Por Iverson Kech Ferreira

Sempre tive a intenção de escrever e pesquisar sobre Beowulf e sua lenda nórdica por dois motivos: tudo leva a crer que é o poema mais antigo escrito em um dialeto que reúne o idioma anglo saxão e alguns jargões dinamarqueses, e segundo, por se tratar da narração em prosa de um conto que reúne inúmeras fontes históricas importantes.

Beowulf é datado do século VI, todavia, algumas citações em suas 3.182 linhas remetem o leitor ao século V, incluindo em sua narração ilustres reis como o conhecido Hrothgar e o gauta Higélaco.

Há também Grendel, criatura mítica usada para assustar aqueles que muito alardeavam e pouco faziam bem como os que gritavam e cantavam bêbados pelas ruas; Grendel era a punição.

Todavia, o poema retrata, em algumas de suas linhas, a aparição de uma nova religião interpretada como a doutrina romana, que em nome de Jesus Salvador trazia ao mundo a adoração de apenas um deus, algo inconcebível para os povos escandinavos do século V, que tinham em Odin e sua linhagem de deuses a interpretação do destino do homem.

Não há autoria definida para a obra, uma vez que se acredita que seria uma lenda transmitida de geração em geração oralmente, e depois, transcrita ao papel em forma de poema, perdido com o grande incêndio de 1731 na Biblioteca de Londres, onde guardava-se o manuscrito redigido por volta do ano 1000.

O importante de Beowulf para os nossos estudos criminais é entender como um poema antigo, o primeiro a ser escrito em linguagem anglo saxã, consegue incentivar e inspirar outras obras, como O Senhor dos Anéis de Tolkien e O Príncipe de Maquiavel, onde traços da aventura do rei geata podem ser encontrados.

Entretanto, os crimes em Beowulf envolvem o sentido da mitológica criatura Ouroboros, uma serpente que engole a própria cauda, representando a evolução e a eternidade, bem como o eterno retorno e a sabedoria.

A corrupção do rei Hrothgar e dos demais que se passaram após, incluindo Beowulf, advém de um substrato metafísico, quando se tem, por intermédio de uma bruxa/monstro metamorfoseada em bela mulher, as promessas de riqueza, poder e o desejo mundanal da carne.

Deuses e anjos, desde o Olimpo até a Bíblia, são todos dependentes desse desejo sexual cedido aos mortais e por eles transformado em libertação e em tabu, ao mesmo tempo.

A bruxa em Beowulf, mãe de Grendel, representa esses deuses ao prometer lascivamente poder e riquezas. Além disso, disfarçada de mulher, serve ao herói contratado para seu extermínio os prazeres mundanais concebidos aos deuses e criaturas do além somente quando em disfarce. Em troca, o herói transformar ia-se no rei.

Essa corrupção dos príncipes, narrada no poema como o eterno retorno, pois não há um ponto final para a lascívia dos heróis e para a tentação da mãe de Grendel, também foi descrita por Maquiavel, quando em troca de favores mais acentuados o príncipe cede alguns outros caprichos, que se convertem em uma maldição, pois em algum momento, tal capricho será cobrado, publicado e usado contra ele em forma de chantagem.

Pois o crime em Beowulf é eterno, e a medida em que a corrupção do herói para tornar-se rei é incentivada pela bruxa, que sugere ser a riqueza do ouro e das coisas materiais mais importantes que a bravura, que a honra e a glória, esse corrompe seus valores e princípios.

É por esse caminho que se desvirtua o herói, que deseja o metafisico, quer desprender-se de seu corpo e ser agora o rei: o divino e o único. O herói também é homem querendo sentir um pouco de divindade em si mesmo, da mesma forma que deuses e anjos desciam à terra em troca de prazeres do sexo.

A corrupção em Beowulf é ativa e recomeça com o novo rei, sempre no eterno retorno de Ouroboros. O transcendental é que se deseja enquanto herói, mas por via de seus atos de grandeza e coragem. Ao confrontar-se com o lado mais sombrio de si mesmo, o herói passa a ser humano, homem comum desejando ser mais.

A aspiração fomentada por ouro, riquezas e prazeres mundanais desviou o herói de sua lide e de seu caminho. O que era parcimonioso revelou-se costume e vicio. O rei, ou ex herói pode ser visto encharcado de Hidromel, caindo aos cantos entoando suas glórias do passado que não mais voltam.

O homem comum e o herói são muito parecidos em Beowulf, ainda mais ao tratar-se da corruptiva maneira em que se procura a glória, nem que para isso, a venda de sua própria alma seja, por definição, o único jeito para alcançar a fama e o sucesso.

Não soa familiar ao hodierno tempo e seus atores públicos?

https://canalcienciascriminais.com.br/beowulf-corrupcao-heroi/

Nenhum comentário:

Postar um comentário