sexta-feira, 3 de março de 2017

O Cortiço: a transformação pelo interacionismo

Por Iverson Kech Ferreira

O Cortiço, obra de 1890 do romancista naturalista Aluísio Azevedo, retrata, além das paisagens urbanas que refletiam as formações das vilas e guetos dos trabalhadores braçais, muitos deles oriundos de outras paragens do Brasil, também o contato com outras culturas e diversas maneiras de vislumbrar o mundo que o torna diferente daquele qual antes se conhecia.

As diferenças entre as pessoas, que vinham de toda parte, moldavam cada espaço do cortiço – criado por um português que vivia apenas com o intuito de lucrar, custe o que tenha que custar, desde que o custo não fosse maior que seu próprio lucro.

As diversas formas de obtenção de capital demonstram que a exploração do trabalho alheio e da mão de obra barata, seguindo-se com a escravidão em voga nos fins do século XIX, trazia a concepção do avassalador aproveitamento que fazia o dono da pensão aos seus moradores e trabalhadores.

Numa contaminação ideológica que os fins sempre irão justificar quaisquer meios, o empresário português retratado por Azevedo como João Romão, era dono de uma escrava e trabalhador voraz como uma pessoa com um ideal bem definido: enriquecer.

Todavia, com a criação de alguns quartos que passaram a ser locados, e depois de alguns tempos, estabelecido o cortiço, próximo a uma pedreira a qual foi comprada pelo português, juntava toda a gente que vinha do interior em busca de trabalho no gigante de pedras.

Assim, Romão lucrava alugando quartos para os próprios funcionários que recebiam dele salário para trabalhar retirando pedras, e que depois, com esse mesmo soldo, pagariam ao português o aluguel do mês.

Um plano de mestre, para aquele ex pequeno funcionário de um empresário que morreu, deixando seu soldo e taverna para o seu fiel ajudante: o português.

Só que havia, naquela época, quando o cortiço passou a ser conhecido pela sua estrutura e localização, uma emigração muito grande em busca de um lugar que trouxesse mais vantagens que o duro solo do sertão.

Nesse momento, ao ouvir que a estalagem era barata, simples e que o dono ainda abria vagas constantemente em sua pedreira para os trabalhadores que habitavam o cortiço, esse passou a ser o centro da gente pobre que vinha em desespero e encontrava no velho português, um salvador para suas preces.

Aqueles que lá viviam iam para a pedreira e suas mulheres passavam a lavar roupas nas tinas dispostas no local, em troca de poucos trocados que faziam crescer ainda mais a fortuna do velho lusitano.

Entretanto, a crítica de Azevedo atingiu um patamar maior ainda quando divide a obra em três grandes pontos analisados: o fisiológico, o meio ambiente (físico e social) e a raça.

Nesses pontos há o fundamento que revela importância para a formação de grupos que por afinidade vão se formando e transmutando diversas personalidades que antes eram tidas como seguras e imutáveis.

A interação que o homem faz do ambiente em que vive, das coisas que o rodeiam, das músicas que cercam seus ouvidos, do tom das vozes e falas diversas, enfim, das culturas que se chocam e se estabelecem em local definido, molda o espirito humano e o transforma.

Essa interação converte o homem e tudo aquilo que imaginava como legitimo passa a ser relevado com olhos desconfiados, colocando assim sua fé e gostos em outros sabores. A partir das relações e suas convivências, a pessoa começa uma nova caminhada, em prol de aventuras e sentimentos nunca antes vividos.

Assim, começa a história do português Jerônimo.

Casado com sua portuguesa, veio ao Brasil em busca de um futuro na terra, achou seu canto na vila de São Romão, o Cortiço. Obstinado trabalhador e grande conhecedor de pedreiras e de trabalhos com rochedos e cascalho, logo foi seduzido por João Romão.

Era o líder da mina, cada jazida importante retirada e que fazia ainda mais prosperar a riqueza do dono era celebrada, assim como todos celebravam Jerônimo dentro do cortiço.

Homem de palavra, calmo e astuto, que ajudava a todos como podia. Homem de honra, casado com sua portuguesa e saudoso da terra que havia deixado para trás.

Pois esse homem passou a interagir com todos e com tudo. Com o tempero da comida, com a bebida quente que mexia o sangue no peito e fervia até a malha que usava, com as mulheres que dançavam todos os domingos, mexendo com o fisiológico dos homens, segundo Azevedo, bem como com suas imaginações.

O sol forte dos domingos em pleno Rio de Janeiro pedia algo a mais.

As músicas e batidas dos negros que lá viviam excitavam de forma nunca antes vivida; Jerônimo passou a fazer parte desse ciclo; deixando sua viola onde tirava suas notas de fado português bem como aquela que mais o fazia lembrar de sua amada terra: sua esposa.

Agora seria terra nova, vida nova!

Tudo ficou para traz, em busca de prazeres novos e em busca de uma afirmação e reconhecimento dos seus mais atuais parceiros de empreendimentos. Mulher e filha abandonadas; agora era buscar novos prazeres nos copos cheios de aguardente e nas ruas repletas de infinitas possibilidades.

Foi assim que largou a sua produtividade no trabalho, deixou de ser o homem caseiro que sempre foi podendo ser encontrado nas rodas de sambas ou bebendo em algum bar próximo. Assim, apaixonou-se por Rita Baiana, mulata da várias curvas e encantos nacionais que o levou aos mais abismais labirintos de sua alma.

Conheceu o forte sol e o calor sufocante que não ensejava ao trabalho, mas sim, ao ócio e a entrega aos prazeres mundanais que se encontravam nas ruas do cortiço.

Foi assim, que o homem de imaculada índole se transformou num assassino sórdido, que por vingança e lutando por seu novo amor deixou a esposa em lágrimas e foi travar luta contra outro pretendente de sua nova Calíope (a mulata Rita Baiana), matando-o, aguardando-o entocado como um gato atrás de arbustos junto com mais dois amigos.

Tais colegas receberam cada qual sua parte em dinheiro para auxiliar Jerônimo no assassinato de seu rival, que debaixo de pauladas, deu seu suspiro final.

O assassino foi transformado e feito pelo meio, pelas interações que fazia e pelas oportunidades que surgiram.

O bom homem foi transformado num matador sem dó.

Da mesma forma, o interacionismo simbólico dos instrumentos que cercavam outra personagem do livro, Bertoleza, a levaram ao seu trágico fim.

Antes escrava de João Romão, passou a ter uma vida intima com o vendeiro, como a de marido e mulher. Trabalhadora nata, a negra não parava dia e noite, atrás do balcão a serviço de seu “companheiro”.

Enganada e maltratada, imaginava estar livre junto com seu homem, aquele que com ela envelheceria em união. Mas a velha escrava havia esquecido o mal dessa terra, eternizado pelo horrendo cântico popular:

Para Português, negro e burro Três pês: Pão para comer Pano para vestirPau para trabalhar. * Azevedo, Aluísio. O Cortiço.

*Numa adaptação de Eclesiastes 33:25: “Para o asno forragem, chicote e carga; para o servo pão, correção e trabalho. ”

https://canalcienciascriminais.com.br/o-cortico/

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