segunda-feira, 15 de maio de 2017

Chocolate (racismo, vícios e amor)


A verdadeira história de um homem sem nome.

Baseado em fatos reais, o filme narra a história do primeiro artista negro circense na França, que iria se tornar um palhaço aclamado pelo público.

Ainda que brevemente, mostra a utilização de animais no circo, mas não explora o tratamento que é conferido a eles. Entretanto, fica claro que, apesar de ter sido maltratado como escravo em sua infância, Rafael Padilha (o Chocolate) permaneceu com bondade em seu coração. Sua relação com o macaco que contracena com ele, revela respeito e carinho.

O racismo é muito bem explorado durante todo o filme e notamos que muitas das situações vividas pelo personagem são, infelizmente, recorrentes ainda em nosso tempo. 

Os vícios de jogos e drogas fazem sua vida conturbada. Na trajetória de sua vida, conhece um ativista dos direitos dos negros do Haiti na cadeia e este encontro modificaria sua vida para sempre. Há um despertar da sua situação.

Foto da verdadeira dupla formada por Chocolat e Footit, que fez sucesso no final do século 19

 Como muito bem colocado por Érico Andrade:

"Em Chocolate essas duas dimensões da existência humana são canalizadas para narrar a história de racismo. Ao negro, obviamente é confiado o papel de augusto, ao passo que ao branco se reserva à própria imagem dele mesmo: o europeu racional e sábio. Enquanto várias personagens ressaltam que Chocolate perde a cabeça com facilidade, como se os negros fossem mais suscetíveis de perderem a razão por estarem mais ligados aos animais do que à razão, George (Foottit) é apresentado no filme como alguém ciente do uso do seu dinheiro, sempre disposto a agir com frieza e racionalidade e, por fim, impenetrável capaz, diferente de Chocolate, de resguarda a sua vida privada (não está clara, por exemplo, a orientação sexual de George, cortejado por um gay e com certo ciúme de Rafael em relação ao seu romance com uma das mulheres do circo).

O racismo é reforçado também quando as pessoas reconhecem Rafael apenas como o Chocolate (raras são as pessoas que sabem o seu nome, nem mesmo o diretor do circo sabia) e o incentivam a encarnar invariavelmente, a personagem extravagante, ingênua e, evidentemente, dominada; submissa ao comando dos brancos. Por isso, não é apenas o palhaço branco que domina Chocolate, mas toda sociedade francesa; não menos branca. É ela que o desautoriza a interpretar Othello na medida que o confina, tal como houvera acontecido com o seu pai, à condição de uma espécie de animal que obedece o comando do seu senhor e se coloca apenas na condição de servir. Chocolate faz sucesso em Paris porque uma das facetas do exotismo é o cômico: tratar o diferente como uma charge cujo desejo e história são absolutamente irrelevantes, visto que o seu propósito é apenas servir; no caso de Chocolate, servir ao riso dos brancos.

Apesar de mostrar o tema do racismo, ainda inesgotável, Chocolate termina por nos trazer uma reflexão sobre a outra face do racismo: o etnocentrismo. O processo de colonização foi tão forte que para Chocolate ser reconhecido, no limite, como humano ele deveria interpretar Othello que é uma peça européia clássica e cuja personagem negra era interpretada por brancos, pressupondo-se, claro, a inaptidão do negro para o papel. Ou seja, para deixar a condição de servidão do palhaço tipo augusto, Rafael não deveria apenas enterrar Chocolate, mas deveria aceitar o padrão europeu, a cultura européia, como o único caminho para a civilização.

O desenrolar da trama mostra que Rafael não distinguia realidade da fantasia porque  a imersão completa na personagem Chocolate lhe permitia pertencer . Por outro, temos uma personagem apolínea (poderíamos pensar em termos nietzscheanos como o dionísiaco) em pessoas ambíguas, contraditórias e no caso do outro palhaço (Fottit) impenetráveis (não está clara a orientação sexual de Fottit, cortejado por um gay e com certo ciúme de Rafael em relação seu romance com uma das mulheres do circo ?)." (http://www.diariodepernambuco.com.br/app/noticia/viver/2016/06/10/internas_viver,649787/critica-filme-chocolate-e-um-retrato-tragico-e-comico-do-racismo.shtml)


Nenhum comentário:

Postar um comentário