sexta-feira, 26 de maio de 2017

Introdução e tópico 1 do livro: Marcos - introdução e comentário (Dewey M. Mulholland)

INTRODUÇÃO
Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, sua vida e morte, suas palavras e feitos mudaram para sempre o curso da vida de homens e mulheres no mundo. Ele estabeleceu as bases da esperança no futuro. Essas boas novas nos são apresentadas no "Evangelho Segundo Marcos", provavelmente o mais antigo relato que temos sobre Jesus.
A primeira vista, o Evangelho de Marcos parece ser um simples recontar dos fatos ocorridos na vida e ministério de Jesus. Entretanto, pela habilidosa descrição de tais episódios, o autor nos apresenta um Jesus realmente humano que é ao mesmo tempo Deus entre os homens. Pela seleção criteriosa e colocação estratégica desse material, ele integra teologia e a realidade da vida. O retrato vivido de seus personagens leva os leitores a experimentar tais eventos em primeira mão, pois os conflitos experimentados pelos contemporâneos de Jesus são compartilhados pelas pessoas de todos os lugares. Ao descrever como o governo de Deus se tornou realidade com a vinda de Jesus, ele desafia a humanidade a um discipulado radical.
Este Evangelho nos oferece uma excelente oportunidade de contemplar a pessoa de Jesus Cristo. Por meio dele sabemos como Deus é, o que ele espera dos homens e mulheres e o que ele tem feito para tornar realidade essa expectativa. Além disso, Jesus nos convida a segui-lo e a experimentar aqui e agora os privilégios e as responsabilidades do reino de Deus.
Teria sido muito proveitoso se o Evangelho identificasse claramente seu autor, seus propósitos e outros detalhes. Na ausência de tais dados, os estudiosos pesquisam as informações implícitas no texto e nas evidências externas, com o objetivo de entender os antecedentes e as origens do Evangelho. Cada um aborda essa questão com suas próprias pressuposições. E sob essa perspectiva que apresento o que acredito ser uma hipótese possível para a origem do Evangelho de Marcos.

I. A Ocasião, o autor e a data do evangelho

A medida que aqueles que conviveram com Jesus aproximam-se do fim de suas vidas , torna-se imperativo que a história da vida de Jesus e os seus ensinos sejam registrados para as futuras gerações. Além de sua importância como documento histórico, essa narrativa é capaz de apresentar homens e mulheres a Jesus, conduzindo-os ao reconhecimento de que ele é o Cristo, o Filho de Deus. Da mesma forma, ao retratar as dificuldades dos discípulos em compreender e seguir a Jesus no caminho para a cruz, Marcos pode, também, se tornar um eficiente guia à vida e à obediência a Deus.
O autor deste Evangelho aborda essas necessidades ao escrever a pessoas de diferentes níveis de entendimento. Como um evangelista, ele promove um compromisso radical com Jesus Cristo. Ele também escreve como um pastor atento às lutas das comunidades cristãs.

Na metade do primeiro século A.D., Roma era uma próspera cidade com cerca de 1 milhão de pessoas. Abrigava homens e mulheres vindos das fronteiras mais distantes do Império, que trouxeram consigo seus próprios costumes, línguas e religiões. Os cristãos também vieram, trazendo sua nova fé em Jesus Cristo, compartilhando o evangelho com todos, independente de origem étnica, classe social ou econômica. Porém, a diversidade étnica e as experiências religiosas anteriores desses novos cristãos ameaçam o cristianismo autêntico. Os novos convertidos incorporam elementos de sua herança religiosa à doutrina cristã. Seu comportamento quase sempre ofendia os códigos morais dos outros crentes. O relacionamento entre os crentes judeus e gentios tornou-se especialmente difícil à medida em que os líderes das sinagogas denunciavam aqueles judeus que rejeitavam as antigas tradições. A incipiente perseguição das autoridades romanas ganhava força com a alegação de que a lealdade a Jesus Cristo e seu reino colidiam com a lealdade a César.

Sofrendo com as tensões internas e os ataques externos, a comunidade cristã em Roma necessitava de ajuda. É o pensamento deste escritor que Marcos escreveu este Evangelho tendo em mente aqueles cristãos.

Marcos, também conhecido por João Marcos, era filho de Maria, cuja casa tornara-se local de reunião dos primeiros cristãos em Jerusalém. (At 1.13). Marcos provavelmente fora convertido pelo ministério de Pedro e discipulado por Barnabé (At 12.25, cf. At. 11.25).

Na primeira viagem missionária, Barnabé e Saulo levaram consigo a João Marcos como hyperetes (At 13.5), um "auxiliar" ou "ministro". De acordo com o testemunho unânime da Igreja primitiva, Marcos recebeu o Evangelho de Pedro. Esta testemunha ocular, portanto, treinou Marcos para ser um hyperetes — um auxiliar. Nessa capacidade, Marcos "ministrou" a Saulo de Tarso (Paulo) na viagem à Ásia Menor (47 - 49 d.C), suprindo-lhe conhecimentos sobre os feitos e as palavras de Jesus.
O Livro de Atos não diz porquê João Marcos "...apartando-se deles, voltou para Jerusalém" (13.13). Talvez a insistência de Paulo na aceitação dos gentios sem exigir a Circuncisão tenha provocado certa inquietação em Marcos, o qual teria partido para discutir o assunto com o seu mentor, Pedro. Depois da decisão sobre a questão no concilio de Jerusalém (At 15), Barnabé queria que Marcos voltasse a acompanhar a equipe missionária (15.36-40). Houve, no entanto, um grande desentendimento entre Paulo e Barnabé, e eles seguiram por caminhos diferentes. Deste ponto em diante o livro de Atos omite qualquer referência a Marcos (também Pedro). Marcos reaparece nas Epístolas (60-65 d.C), reconciliado com Paulo, em Roma. Paulo o recomenda à igreja em Colossos (Cl 4.10-11) como um amigo e Consolador. Mais tarde Paulo pede a Timóteo que traga Marcos para Roma "pois me é muito útil para o ministério" (2 Tm 4.11).

As Teologias de Marcos e de Paulo evidenciam um relacionamento estreito. Por exemplo, ambos enfatizam a cruz de Cristo, e sua humilhação, como o caminho da glorificação. Ambos pregam a harmonia para a comunidade cristã formada por gentios e judeus, sem abrandarem as denúncias ao legalismo judeu. Outros temas comuns como o lugar da Lei mosaica na comunidade cristã, a hostilidade dos líderes civis e religiosos contra Cristo, e o cumprimento dos propósitos de Deus como revelados no Antigo Testamento, se encontram tanto nos escritos de Marcos como nos de Paulo. Em contraste com a abordagem proposicional de Paulo, Marcos expressa sua teologia nas narrativas da vida de Jesus. Desse modo, ele convida seus leitores a identificarem suas experiências com os acontecimentos do evangelho, e a crescer no conhecimento de Deus e de como ele opera. Os relatos do sofrimento de Jesus, por exemplo, provêem a base para a autonegação como parte do discipulado (cf. 8.34).

Pedro, também, passou seus últimos anos em Roma e foi martirizado da mesma forma que Paulo. Marcos tinha estado com ele no princípio em Jerusalém; agora, no final da vida do apóstolo, eles estavam juntos diariamente. As vividas narrativas de Marcos c o uso distintivo dos pronomes refletem a influência do testemunho ocular de Pedro. Por meio das narrativas de Marcos, Pedro relata até mesmo suas próprias falhas em compreender o significado do ministério e da morte de Jesus. O entendimento completo só veio para ele depois da ressurreição, quando Jesus abriu as mentes de seus seguidores para que pudessem entender as Escrituras (Lc 24.27; At 1.3). Sob a direção do Espírito Santo (Jo 16.21; 2 Tm 3.16; 2 Pe 1.20), Marcos derivou o material do seu evangelho das experiências pessoais de Pedro com Jesus.

As datas propostas para o surgimento deste Evangelho em sua forma definitiva vão do ano 39 até um pouco antes da destruição de Jerusalém em 70 d.C Parece-nos razoável que João Marcos tenha começado a escrever seu Evangelho em Roma com a colaboração de Pedro, e possivelmente Paulo, e que o tenha concluído após martírio deles (65 d.C), antes, porém, do início da guerra dos judeus contra Roma (67 -70 d.C).

Ao compor seu Evangelho, Marcos tinha em mente as necessidades dos gentios convertidos dentre seus leitores. Ele traduziu, por exemplo, várias expressões do aramaico (3.17; 5.41; 7.11, 34; 15.22) e deu explicações sobre alguns costumes judaicos (7.3; 15.22). Ao mesmo tempo ele deixou muitas alusões ao Antigo Testamento sem explicação, sinalizando dessa forma as raízes judaicas da fé cristã.

Marcos também procurou fortalecer a fé de seus leitores judeus. Seu uso constante do Antigo Testamento lembrava-lhes de que eram o povo especial de Deus, escolhidos para compartilhar sua rica herança com as nações. Em Jesus, eles viam a compaixão de Deus e seu misericordioso perdão. Marcos enfatizou que Jesus é o Servo Sofredor que cumpriu o papel do verdadeiro Messias, de acordo com os profetas. Ele lhes deu esperança em meio aos sofrimentos. Ele lhes ensinou os elementos da verdadeira adoração, livre do legalismo, nacionalismo e ritualismo centralizados em Jerusalém. Marcos sabia que a igreja primitiva devia ser edificada sobre a verdade da nova aliança.

O relacionamento próximo de Marcos com os seus primeiros leitores explica várias questões intrigantes para o leitor moderno. Ele não sentia necessidade de declarar explicitamente sua autoria, pois tinha certeza que os leitores originais sabiam que ele estava escrevendo a história de Jesus. Um incidente, aparentemente biográfico, como aquele do jovem envolto no lençol que fugira nu, seria o suficiente para identificá-lo como autor (15.51s). Seus leitores sabiam que o Espírito Santo fora dado conforme profetizado por João Batista (1.8). Não havia necessidade de escrever sobre as aparições pós-ressurreição de Jesus, pois eles sabiam que Jesus tinha ressuscitado do túmulo (como declarado em 16.6). Marcos apresenta Jesus ensinando de maneira a atender às necessidades existenciais daqueles primeiros leitores em seu contexto social.

O texto de Marcos flui de sua preocupação pastoral com seus leitores. Ele os encoraja a se tornarem discípulos, aplicando a si mesmos todo o ensinamento que Jesus dera aos doze. Está convencido de que o verdadeiro conhecimento da natureza, caráter e ministério de Jesus, é necessário para uma vida individual e comunitária saudável. Ele traz à mente os dilemas e as oportunidades que estavam diante de seus leitores. Quer que eles compreendam o verdadeiro significado do evangelho e que sigam a Jesus custe o que custar. Deseja que os crentes, judeus e gentios, vivenciem a unidade como membros da família de Deus (3.35), e como participantes na "casa de oração para todos os povos" (11.17). Marcos encoraja os crentes judeus a abraçar os gentios como co-herdeiros da graça de Deus.


Marcos está profundamente interessado em espalhar o evangelho a todas as nações, pois seu Evangelho tem um apelo universal. Mesmo assim, não o vemos como uma mensagem evangelística dirigida aos incrédulos em particular. Ao apresentar a mensagem de Jesus Cristo em profundidade, ele o faz a fim de preparar os crentes para viverem e a proclamarem as Boas Novas. Isso condiz com sua ênfase no discipulado. Seu método consiste em desdobrar a mensagem clara e profundamente, e, então, exortar a todos os discípulos a cumprir a missão iniciada pelo próprio Jesus, levar as Boas Novas a judeus e gentios da mesma forma.

Trecho do livro: "Marcos - introdução e comentário" de Dewey M. Mulholland, Série Cultura Bíblica. 

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