sexta-feira, 30 de junho de 2017

Até o Último Homem (Guerra, convicção religiosa e persistência)


Baseado em fatos reais, com seis indicações ao Oscar e direção de Mel Gibson, o filme narra a história de Desmond Doss, primeiro soldado americano a alegar imperativo de consciência mesmo tendo se alistado voluntariamente para servir na Segunda Guerra Mundial, que foi condecorado com a Medalha de Honra do governo americano.

Transcrevo parte da crítica de Bruno Carmelo em "O bom cristão vai à guerra":

"(...)
Como ser um pacifista em meio à guerra?
Como lutar contra inimigos armados sem possuir instrumentos de defesa?
Desmond sublinha a contradição do heroísmo americano: por um lado, não tirar a vida de uma pessoa é percebido como virtude, por outro lado, tirar a vida de inimigos que nos atacam é considerado um ato de bravura.
De que modo se concilia o mandamento “Não matarás” com o patriotismo guerreiro? Até o Último Homem fornece uma leitura didática, mas interessante, deste paradoxo. A primeira solução é retirar a humanidade do inimigo: os soldados mais sangrentos enxergam nos japoneses uma figura satânica, portanto digna de ser combatida com violência. A segunda é se isentar de culpa pelo alter ego de grupo: não existe problema matar se isso for praticado por todos, como uma ordem direta dos superiores. Os soldados não se sentem responsáveis por cumprirem o que se espera deles. Talvez por isso a decisão do personagem principal soe como ofensa tão grande: ele quebra o acordo tácito de que matar é algo defensável, contanto que todos os façam.
O drama questiona, portanto, a violência dos “homens de bem”, a incompatibilidade entre amar o próximo como a si mesmo e amar apenas o próximo, mas não o diferente. Este seria um debate relevante não apenas em tempo de guerras oficiais, mas também em momentos de proliferação de crimes homofóbicos, chacinas em prisões, ladrões amarrados a postes etc. A lógica individualista permite que pessoas boas apliquem violência contra as ruins. Mas quem está autorizado a distinguir as primeiras das segundas? O prelúdio da barbárie social é sintetizado pela figura martirizada de Desmond. Andrew Garfield faz questão de interpretá-lo como um tipo quase autista, um novo Forrest Gump. Sua inaptidão social rivaliza apenas com sua ingenuidade e sua integridade durante o combate. Este é o homem disposto a ajudar qualquer um, mesmo os soldados que o maltratam e um inimigo ferido.
(...)"

Fonte: http://www.adorocinema.com/filmes/filme-208104/criticas-adorocinema/

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