quinta-feira, 15 de junho de 2017

Para a menina que engorda

A ideia desse texto surgiu a partir de uma música, já um pouco antiga, é verdade, mas que despertou em mim um questionamento bastante atual, aliás, sempre atual. O qual eu jamais faria 20 anos atrás, momento em que a música foi escrita, tanto pela minha pouca idade àquela época, quanto pelo fato de que a minha consciência sobre tal tema foi fruto de um processo pessoal ainda recente. Então, permito-me, aqui, fazê-lo agora, ainda que, talvez, já tenha passado o tempo.

A música é “Diariamente”, cantada por Marisa Monte e escrita por Nando Reis, uma das minhas preferidas, diga-se de passagem. Enquanto a escutava, deparei-me com um trecho que me deixou bastante intrigada, sobretudo, por se tratar de uma música tão livre, tão leve. O tal trecho era: “para a menina que engorda: hipofagim”.

Veio um misto de tristeza e decepção. Uma das minhas músicas mais queridas não podia dizer isso, não fazia sentido. Como assim mandar a menina que engorda tomar remédio para emagrecer? Um remédio com tantos efeitos colaterais, que traz tantos danos. Sem sequer procurar saber se a menina que engorda QUER emagrecer. Não, ela não tem essa escolha. E, o que é pior, é a menina, não é a pessoa, não é o menino, é a meninA. É nossa a obrigação de ser magra e “desejável”. É nossa.

Depois, ainda insisti em viver em negação, pensei que talvez estivesse exagerando e que agora via problema em tudo. Mas não, não estou. Não estou, porque eu fui a menina que engorda, eu sou a menina que engorda. A menina que não tomou hipofagin, mas que tomou outras drogas igualmente controversas, com diversos efeitos colaterais, que veja só, não resolveram nada.

Eu que cresci me odiando, me sentido errada e inadequada. Eu que aprendi da maneira mais dura, que existir na minha própria pele era errado, que ser “eu” era errado. Aprendi que meu corpo me fazia merecer todas as espécies de ofensas e julgamentos pelo simples fato dele ser assim, quando eu ainda mal sabia amarrar os cadarços.

Aprendi que para ser respeitada, amada, considerada, elogiada, eu , a menina que engorda, precisava estar dentro de determinado peso e tamanho. Aprendi que isso era mais importante do que o que eu era de verdade, do que os livros que eu lia, do que minhas ideias, minhas paixões, meus planos, minhas músicas e filmes preferidos.

Aprendi, quando ainda nem tinha consciência do meu próprio corpo, que ele não era meu, ele era dos outros, que se sentiam no direito de decidir como ele deveria ser, convictos de que poderiam me moldar a seu bel-prazer. Fui analisada, investigada, enquadrada, invadida de todas as formas possíveis. Uma coisa era certa, eu não podia ser eu.

E antes mesmo de aprender a fazer uma equação de primeiro grau, eu, a menina que engorda, aprendi a contar calorias, aprendi que meu dia deveria girar em torno disso. Gastei horas, dias, semanas, meses, anos com essa obsessão.

Aprendi ainda que a regra era lutar contra meu próprio corpo, que sentir fome, veja só, uma necessidade fisiológica, era errado, feio. E, que sentir culpa em toda e qualquer refeição fazia parte do pacote “seja magra, não questione”. Aprendi, principalmente, a temer voltar a ser gorda com todas as forças do meu ser, como um fantasma pairando sobre mim o tempo todo, afinal era eu quem tinha que me manter magra para não ser desrespeitada nem ofendida e não as pessoas me respeitarem.

Eu, a menina que engorda, sufoquei toda e qualquer vontade que estivesse fora daquele papelzinho que não tinha nem 20 linhas. Minha vida passou a se resumir em seguir uma dieta num papel, que não tinha nem 20 linhas. UM PAPEL. VINTE LINHAS. MINHA VIDA. E eu só tinha 11 anos.

E, hoje, que finalmente, aos trancos e barrancos, aprendi que meu corpo é meu, só meu, que ninguém tem o direito de decidir como ele deve ser, que sei que ele tem valor, que eu tenho valor, que nós merecemos nada menos que respeito, ainda hoje, tem dias que o mundo me faz pensar que eu não sou boa o bastante, tem dias que ainda me sinto inadequada, inferior e incapaz, pelo simples fato de não ser magra, afinal, me ensinaram, muito bem, que a “errada” era eu, quem mandou ser assim.

E é por tudo isso que contestar um trecho de uma música escrita há mais de vinte anos, para mim, não é só um questionamento fora de época, pra mim, significa muito mais que isso. Significa ir de encontro a toda essa imposição social (e moral), que me foi, e continua sendo, empurrada “goela adentro”. Significa, acima de tudo, valorizar, hoje e agora, minha existência dentro DESTE corpo, que já foi tão abominado e odiado. Não mais admitirei, não mais abaixarei a cabeça.

Para terminar, deixo aqui a minha sugestão:

Para a menina que engorda: respeito, amor-próprio, aceitação.

Por: Leilane Costa Matos

Fonte: https://disritmia.blog/2017/04/23/para-a-menina-que-engorda/

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