segunda-feira, 6 de agosto de 2018

Estrelas de cinema nunca morrem (ditadura da beleza, romance e doença fatal)


(...) A biografia da atriz Gloria Grahame é dotada de um clima melancólico, tristonho e quase depressivo por toda sua duração, e o diretor consegue equilibrar esse clima com uma espécie de desconstrução da ditadura da felicidade que impera hoje, e propor um olhar condescendente sobre a tristeza e sobre os gatilhos emocionais que liberam tais sentimentos possam também liberar beleza, inclusive fílmica. Com muita delicadeza, uma dose de charme e algum raro humor, o filme não tem vergonha de mostrar os malefícios da passagem do tempo para quem se ancora nisso.

Parece um caso raro de acerto impensado, e a ajuda do roteirista Matt Greenhalgh pode ter tido papel crucial no produto final. Greenhalgh é um especialista em boas biografias e recortes específicos de vidas estelares. Veio da pena dele os roteiros de Control e O Garoto de Liverpool, respectivamente as histórias por trás do líderes do Joy Division e dos Beatles. O escritor pegou dessa vez uma curva descendente e depois de centrar fogo no surgimento desses artistas, foi conversar com o futuro de Gloria, ou especificamente seu canto do cisne, já numa espécie de exílio britânico para protagonizar uma montagem de The Glass Managerie e tentar um último resquício de brilho longe de casa. O roteiro é baseado nas memórias de Peter Turner, um jovem ator que abrigou Gloria em sua estadia inglesa, bem mais que em sua casa apenas. O cuidado de Greenhalgh no desenho das personalidades dos protagonistas é um achado, além de conduzir o filme com uma sobriedade decadente que parece impedir o sol de entrar, pela tela e pelo texto.

A fotógrafa polonesa Urszula Pontikos trabalha com extremo bom gosto por esse passeio dark sobre almas atormentadas pelo passado, pelo futuro incerto e pelo presente fugidio, trabalhando com tintas ocres nas lentes e conseguindo um resultado surpreendente, que nada a aproxima dos seus brilhantes trabalhos em Weekend e Lilting, tão luminosos; sua experiência em ambientes fechados e em atmosferas reprimidas a capacitaram para o trabalho, realizado com esmero. McGuigan trabalha com o capricho de Urszula e com a experiência de Eve Stewart nos cenários, conseguindo o resultado necessário para contar sua história de amor triste e construindo uma ambiência de profundo pesar, mesmo quando fulgurante. 

Para estrelar tal trama tão introspectiva, que espelharia o ocaso de uma vencedora do Oscar ao início de um jovem ator sem perspectiva, era primordial que o casal protagonista estivesse em fina sintonia com aquele universo, em imersão total. Pois é exatamente nesse estado que encontramos Annette Bening e Jamie Bell, provavelmente nos maiores desempenhos de suas carreiras. De trajetórias levemente similares às dos biografados (falta a Annette o boneco dourado que Gloria conseguiu), é ela também uma estrela não-valorizada a contento no cinema americano, e ele um jovem astro que ainda não alcançou o lugar que já deveria ser dele há tempos. O espelhamento invertido entre personagens encontra eco real na vida, o que talvez tenha imbuído ambos de uma urgência emocional que os arremessou a uma jornada interior, trazendo pra fora o mínimo. Annette já vinha numa espiral de imersão e é um hoje uma atriz infinitamente superior a 15 anos atrás, e a prova está aqui; Gloria está nos seus olhos, nos seus gestos, na sua postura e no seu cansaço gradativo, que a transforma numa espécie de estrela cadente em forma humana. Já Jamie é um jovem ator que mostrou ao que veio na estreia em Billy Elliot, e tem aqui um grande desafio que é ser o esteio de uma mulher e também ele poder ser uma figura frágil em busca de atenção.

Fechando o quadro de colaboradores com J. Ralph (compositor indicado ao Oscar só essa década por 3 vezes) e Nick Emerson (montador responsável pelo excepcional ritmo em Lady Macbeth e Starred Up), Paul McGuigan conseguiu um notável feito de sobressair num sub-gênero tão ingrato tendo ele também resultados tão infelizes na carreira, talvez graças a esse time tão feliz na química coletiva. Ainda que não tenha conseguido se livrar das obrigações tão enfadonhas de uma biografia e precise prestar contas de lidar com os tais 'fatos reais' para levar adiante sua narrativa, o diretor acima de tudo conseguiu construir e manusear um estado de espírito tão comum a vidas a deriva de suas vontades e capacidades, uma espécie de consciência da finitude em vida, através de sons, cores, olhares e expressões.
Por Francisco Carbone, em 24/04/2018Avaliação:                 8.0
http://www.cineplayers.com/critica/estrelas-de-cinema-nunca-morrem/3741

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