quarta-feira, 2 de setembro de 2026

A palavra como testemunha: a língua diante das violências de gênero


 Há uma cena que se repete nos tribunais, nas delegacias e nos noticiários: uma mulher descreve o que lhe fizeram, e a língua, que deveria ser sua aliada, torna-se um campo minado. Cada palavra dita pode ser lida contra ela. Cada silêncio, contra ela também. Antes de ser um instrumento de justiça, a palavra é um instrumento de poder — e quem a domina, domina a narrativa da violência.

A gramática, ensinada como mera técnica, guarda uma dimensão política. Na voz passiva, o agente pode desaparecer: "a mulher foi estuprada" não diz quem a estuprou; "a mulher foi morta" não nomeia o assassino. O noticiário repete essas construções todos os dias, e com elas a violência ganha a aparência de um acontecimento sem autor, uma fatalidade. A língua, nesses casos, não é neutra: é cúmplice.

O Direito, porém, ensina o caminho inverso. Nomear é reconhecer. Foi assim que a categoria "feminicídio" entrou no Código Penal em 2015, pela Lei nº 13.104, para dizer que matar uma mulher por ser mulher não é um homicídio qualquer: é a expressão última de uma estrutura de dominação. Foi assim que a "importunação sexual" ganhou tipificação própria em 2018, pela Lei nº 13.718, dando nome ao que antes se dissolvia em "constrangimento", "brincadeira" ou "mal-entendido". A linguagem jurídica, quando precisa, devolve às mulheres a realidade do que sofreram — e torna possível cobrar do Estado a resposta que a violência exige.

O problema é que a linguagem jurídica e burocrática também sabe silenciar. O inquérito pergunta o que a vítima vestia; a defesa explora sua vida pregressa; o relatório reduz sua dor a uma classificação técnica. A mulher que fala deixa de ser sujeito e vira "a vítima", categoria genérica que apaga sua história. E há ainda a construção mais sutil: quando se escreve "ela afirma ter sido agredida", a dúvida entra pela sintaxe — a palavra da mulher chega ao papel já marcada por suspeita, antes de qualquer análise de provas.

A escuta, portanto, também é um exercício de língua. No enfrentamento às violências de gênero, o relato da vítima é frequentemente a única prova disponível: a violência doméstica, o assédio e o estupro costumam ocorrer sem testemunhas, no espaço privado, na sombra. Saber ouvir o que foi dito — e saber registrar com fidelidade o que foi dito — é uma responsabilidade de quem escreve o boletim de ocorrência, de quem redige a sentença, de quem assina a matéria jornalística. A palavra da mulher, quando respeitada, transforma-se de suspeita em testemunho.

A língua portuguesa, ensinada como herança, é também território de disputa. Quem nomeia a violência decide se ela será visível ou invisível, punível ou tolerada. Uma sociedade que diz "ele a matou por ciúmes" ainda procura desculpas; uma sociedade que diz "feminicídio" reconhece o padrão. A diferença entre uma expressão e outra não é estilística: é ética.

Diante disso, a tarefa é clara para quem escreve, julga, ensina ou apenas lê: escolher as palavras com a consciência de que elas testemunham. A língua pode apagar o agressor, naturalizar o crime e desacreditar a vítima — ou pode nomear com precisão, preservar a dignidade e dar à dor o reconhecimento que ela exige. A palavra é testemunha do que aconteceu. A pergunta é de que lado ela estará.

Catalão, 23 de agosto de 2026.




domingo, 16 de agosto de 2026

Da Norma ao Ninho: a transmissão dos direitos das mulheres entre gerações

 

Habito o cruzamento da palavra e da norma. Como professora de Direito e de Língua Portuguesa, dedico meus dias a decodificar as estruturas que organizam a nossa sociedade. Aos 51 anos, contudo, compreendo que as lições mais profundas sobre cidadania não se esgotam nas salas de aula jurídicas, mas ganham corpo no cotidiano. É na condição de mãe de uma adolescente de 16 anos que a urgência dos direitos das mulheres se materializa diante de mim, exigindo um olhar que conecte o rigor dos códigos à sensibilidade da vivência.

O universo jurídico brasileiro avançou formalmente na proteção ao gênero, mas a eficácia social dessas leis é um campo de batalha diário. Quando analiso a Constituição Federal ou a Lei Maria da Penha com meus alunos, vejo a técnica. Quando olho para minha filha, vejo o futuro que precisa habitar essas garantias de forma plena e segura. Educar uma jovem de 16 anos no cenário contemporâneo é um exercício de equilibrar o alerta contra as violências estruturais e o incentivo à sua autonomia. Desejo que ela conheça seus direitos não por precisar acioná-los em um momento de dor, mas para que os exerça como prerrogativa natural de sua existência.

Sei que sou uma mulher privilegiada. Divido a vida com um esposo que é um excelente companheiro, alguém que compreende a conjugalidade sob a ótica da equidade e do respeito mútuo. No entanto, o feminismo bem instruído nos ensina que o bem-estar privado não pode nos anestesiar diante da barbárie pública. A segurança e o afeto que encontro no meu lar devem ser a regra jurídica e social para todas as mulheres, e não um bilhete premiado de loteria afetiva. O pacto civilizatório só estará completo quando o respeito de gênero não depender da "bondade" individual de um parceiro, mas for uma garantia institucional inegociável.

Escrever sobre os direitos das mulheres a partir desta maturidade é compreender que a linguagem é nossa primeira trincheira de defesa. Como educadora, sei que mudar o léxico é mudar o mundo. Ao dialogar com o Pasquim Feminista: Informativo Libertário Rosa Gomes, reforço o compromisso de usar a docência e a maternidade como atos políticos de resistência. Precisamos continuar traduzindo o Direito para que as nossas filhas não apenas leiam as leis, mas escrevam as suas próprias histórias em um mundo verdadeiramente livre do patriarcado.


Fonte: https://www.instagram.com/p/DbnxkDADmAX/?img_index=2&igsh=MXNpczJoOXppbHJ4bQ==&igsi=MXNpczJoOXppbHJ4bQ==